A Cidadela Codependente
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependência e gratidão
O emissário da luz — doravante simplesmente emissário — recebeu uma missão: Traçar uma rota iluminada em determinado ponto dos domínios da humana escuridão, onde havia um antigo castelo habitado unicamente por um castelão — o arquiteto e construtor mental do castelo — que deveria ser tocado pela luz; o castelo deveria ser destruído.
O emissário iniciou seu trabalho de vento em popa, nenhum obstáculo pela frente, até que depois de algum tempo a passagem da luz foi bloqueada por uma gigantesca e inexpugnável cidadela, algo parecido com os antigos castelos medievais daqueles idos tempos dos senhores feudais — a luz não conseguia mais avançar.
Ao aproximar-se do castelo o emissário percebeu que o material de sua construção era constituído de medo, solidão, vergonha, rejeição, indiferença, insegurança, raiva, culpa, intolerância, mágoa, pensamentos mágicos, ansiedade, fantasias mentais — dentre tantas outras negativas emoções —, e que tudo aquilo era unido por uma poderosíssima argamassa, a angústia, que fazia da grande fortificação mental e emocional do castelão um obstáculo praticamente intransponível.
Havia no castelo uma grande porta; o emissário bateu e chamou inúmeras vezes, mas ninguém respondeu, estaria desabitada a fortificação? — o emissário sabia previamente que não. A luz precisaria penetrar por aquele local, tocar o castelão e seguir adiante, então o emissário começou a agir, era fundamental que ele pudesse derrubar aquelas poderosas muralhas mentais a fim de fazer contato com o senhor daquele castelo, que com sua poderosa mente obstruía de forma tão obstinada a presença da luz.
Em seu arsenal luminoso haviam vários artefatos que poderiam ajudar a derrubar as paredes daquele castelo mental. Pouco a pouco o emissário foi lançando na escuridão seus luminosos projeteis em direção as muralhas, que em contato com estes começavam paulatinamente a ruir. O primeiro projétil lançado foi "Admita sua impotência", o segundo foi "Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos pudesse devolver-nos a sanidade", o terceiro projétil "Fizemos um minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos", o quarto "Solte-se e entregue-se a Deus", e depois outros, muitos outros ao longo da escuridão, o que levava aos poucos as grossas paredes do castelo ao chão, mas nada do castelão aparecer.
O emissário resolutamente continuava a lançar seus poderosos mísseis escuridão a fora em direção ao castelo: "Viva um dia de cada vez", "Faça primeiro as coisas primeiras", "Admita a natureza exata de suas falhas", "Prontifique-se inteiramente a deixar que Deus remova todos os seus defeitos de caráter", "Faça reparações às pessoas que você prejudicou", "Procure melhorar seu contato consciente com um Poder superior através da prece e meditação...", "Você é a pessoa mais importante da sua vida", "Viva e deixe viver", "Liberte-se da preocupação e da culpa..." — assim eram os torpedos do emissário da luz.
Pouco a pouco o castelo vinha a baixo, contudo, o castelão não aparecia; o castelão não se rendia; o castelão não se defendia; o castelão não se manifestava; o castelão não bradava; o castelão não gritava; o castelão não protestava... Que tipo de homem seria aquele afinal de contas, que mesmo sob fogo cerrado ao longo de toda uma noite não se rendeu, presenciando silenciosamente a total destruição de seus domínios mentais, que tipo de homem seria aquele? Deveria ser um guerreiro muito bravo, gigantesco e poderoso, refletiu o emissário enquanto disparava sistematicamente os torpedos finais sobre os escombros do castelo agora em ruínas: "Solte-se e entregue-se a Deus, solte-se e entregue-se a Deus, solte-se e entregue-se a Deus...".
Sobre os escombros do castelo agora totalmente destruído, o emissário saiu vasculhando tudo em busca do castelão oculto; ia, não como um vencedor à procura de um vencido, mas como um ser com um profundo anseio de partilhar sua luz interior com aquele que vivia mergulhado na própria escuridão. Pela resistência e tamanho da fortaleza mental, o emissário tinha a mais absoluta certeza de que encontraria um homem com uma mente profundamente criativa e brilhante — havia muita energia mental e engenhosidade em todas aquelas paredes destruídas pelo chão — e, muito provavelmente numa idade bastante avançada — quem sabe mesmo um ancião — pois, pela aparência o castelo deveria ter várias décadas de existência.
Depois de finalmente vasculhar cada pedacinho daquelas ruinas, o emissário — doravante luz — finalmente encontrou quem ele tanto procurava, e o que ele viu tocou profundamente o seu coração: Encolhidinho em um canto não um poderoso e bravo guerreiro; encolhidinho em um canto não um velho e orgulhoso castelão; encolhidinho e amedrontado em um canto, tão somente uma indefesa e ferida criança profundamente emaranhada nas dolorosas teias da codependencia, que por tanto temor da vida construiu inconscientemente sua própria cidadela de dor, fantasias, proteção, sonhos e ilusões — um verdadeiro castelo de depressivos pesadelos —, na vã tentativa de escapar da realidade.
Difícil determinar se foi a luz quem tocou a criança ou se foi a criança quem tocou a luz; lágrimas de amor, acolhimento e compaixão jorravam abundantemente dos olhos da luz, e a criança finalmente nascida para a vida. sorriu e chorou décadas depois de ter saído do ventre de sua mãe.
Cumprida a sua missão, a luz de forma natural seguiu seu caminho escuridão adentro, e antes de desaparecer do olhar da criança, disparou um último projétil que irradiou um intenso brilho por todo o firmamento: "Tendo encontrado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem a outros que ainda sofrem e praticar estes princípios em todas as nossas atividades — Décimo Segundo Passo" .
Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

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