O Mundo Não Gira em Torno do Meu Umbigo
Eu estava enganado; desde a minha infância eu achava que o mundo estava todo errado, e que todas as pessoas do mundo estavam erradas também. Como aquele estado de coisas me aborrecia muito, eu precisava então fazer alguma coisa, afinal de contas eu era um inocente no meio de um mundo louco, e grande era o meu sofrimento, que coisa!
Meu sonho era tentar, de alguma forma, converter todos a viverem no mundo da forma como eu achava que era a mais apropriada — a minha distorcida e egocêntrica forma de viver —, mas infelizmente não consegui, pois esta insana tarefa de formatar e padronizar as pessoas à minha própria forma de enxergar o mundo sempre foi impossível de ser realizada por mim, apesar da minha enorme força de vontade e da minha suposta grandiosidade altruísta para a construção de um mundo melhor a partir, obviamente, da minha visão particular do globo terrestre e de todos os seus seres vivos.
Este doido sonho insistente da transformação do mundo a partir da transformação dos outros materializou-se num grande pesadelo vivido por mim diariamente ao longo de 50 anos, período em que eu gastei muita energia mental tentando controlar a tudo e a todos, e se eu pudesse dar um nome para este pesadelo horroroso e a princípio sem fim, o chamaria de depressão.
Neste estado depressivo eu me via completamente sem forças, completamente derrotado, revoltado, vitimizado, fatigado física e mentalmente, completamente alienado, perdido, ferido, ressentido, completamente de mal com o mundo e com todas as pessoas disfuncionais que nele viviam, pessoas tão doentes, tão indiferentes, tão descontentes, tão hostis, tão injustas...
O fim do pesadelo ocorreu quando um Poder Superior, conforme eu O concebo, me levou até a uma sala de 12 Passos, e num certo dia, pela Sua Graça, me despertou do meu pesadelo quando, num infinitésimo de segundo eu percebi que o problema não estava no mundo, mas em mim mesmo, pois tudo o que eu via no mundo nada mais era do que o meu próprio reflexo no grande espelho da vida. Não guardei esta data na memória, mas de certa forma foi neste memorável dia que eu de fato nasci para a vida.
Este viver vazio, inútil, destrutivo e equivocado, de tão constante na minha vida ao longo de tantos anos, transformou-se num hábito do qual eu venho tentando libertar-me todos os dias, como se de certa forma eu tivesse adquirido o perverso vício de negar a vida, drogando-me com substâncias mentais produzidas pelo meu próprio cérebro para tentar, inutilmente, esconder tanta dor que eu sinto, a dor diária, constante e insistente da negação e do medo absurdo de ser ferido pela realidade, a dor da rejeição.
Se um alcoólico precisa evitar o primeiro gole; se um toxicômano precisa evitar o primeiro contato com a perversa substância de sua adicção; se um neurótico precisa evitar o seu primeiro descontrole emocional; se um comedor compulsivo precisa evitar, depois de saciada a sua fome, abrir a geladeira à procura de algo para preencher o vazio, não o do seu estômago, mas o da sua vida, eu preciso diariamente evitar o sentimento perverso e equivocado de rejeição profundamente presente em grande parte de muitas das reações químicas produzidas pelo meu próprio organismo.
Não tem sido fácil para mim livrar-me deste vício nefasto de rejeitar a realidade, mas é um dia de cada vez, e se o Poder Superior, conforme eu O concebo, me trouxe até aqui, certamente que Ele não me deixará ao léu perdido entre o nada e o lugar nenhum, este escuro local onde vivi por algumas décadas, afinal de contas eu acredito piamente que Ele não dá ponto sem nó.
Se Ele, através do sopro dos ventos, conduziu as caravelas de Colombo e Cabral ao novo mundo, então, no tempo Dele e na hora Dele também poderá conduzir-me através do sopro do seu infinito amor pelo imenso oceano de minhas ilusões para um mundo novo e ainda desconhecido em mim, meu próprio porto seguro.
Só por hoje eu continuarei voltando, afinal de contas pode ser que o meu próximo despertar espiritual esteja à minha espera logo ali na próxima reunião.

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