A Pesada Carga da Criança Culpada
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Movido por um forte egocentrismo — o egocentrismo é natural na infância — e pelo temor de ser ferido pelos humanos, eu desenvolvi o autocontrole, uma técnica para proteger-me dos demais, e desta forma não mais ser alvejado emocionalmente por eles.
Na cabeça de uma criança, o que acontece algumas vezes pode ser algo que vai continuar acontecendo para todo o sempre. Se uma criança for ferida por um humano, na cabeça dela pode surgir a terrível certeza de que todos os outros humanos ferem também; se uma criança observar uma discussão, ela terá uma grande possibilidade de achar que aquilo está acontecendo por causa dela, e desta percepção nasce a culpa, e a culpa pode acompanhá-la por toda a sua vida.
Para uma criança, se estão gritando com ela, ela é a responsável; se estão apontando o dedo para ela, ela é a responsável; se estão de cara feia com ela, ela é a responsável, sempre ela no centro sentindo-se responsável por tudo o que acontece ao seu redor, e esta suposta e infantil responsabilidade ocorrendo de forma sistemática pode feri-la, e uma vez ferida, no seu egocentrismo natural a dor da ferida aberta pode transformar-se em culpa, e então a culpa passa a ser sua perversa companhia pelos anos que virão.
No meu egocentrismo nasceram as feridas emocionais supostamente causadas por humanos, no meu egocentrismo eu era o culpado e a culpa doía em mim, e eu não queria mais sentir aquela culpa tão inconveniente e desagradável, então eu achei a forma de livrar-me desta culpa para sempre, como já disse anteriormente, para a criança tudo é para sempre.
Eu me sentia o culpado por tudo o que acontecia, eu não conseguia perceber que cada ser humano tem a sua própria forma pessoal de lidar com as situações da vida, eu não sabia falar, eu não sabia dialogar, eu não sabia questionar, eu não sabia o porquê deles agirem muitas vezes de uma forma agressiva, e no centro desta confusão toda eu criei o meu próprio mecanismo de defesa para fugir desta dor culpada, eu criei o autocontrole.
No autocontrole eu posso ficar calado; no autocontrole eu posso transformar-me em alguém emocionalmente invisível na multidão; no no autocontrole eu posso refugiar-me dentro de mim; no autocontrole eu posso sempre dizer sim e sim senhor; no autocontrole eu posso engolir todos os sapos de todos os brejos; no autocontrole eu posso sorrir mesmo desejando chorar; no autocontrole eu posso usar milhões de máscaras; no autocontrole eu posso até deixar de existir, e não existindo não me ferem, e não existindo eu posso finalmente encontrar a paz e livrar-me da pesada carga da culpa.
O efeito colateral do meu autocontrole foi o isolamento, e do isolamento nasceu a fobia social e a depressão, o terrível covil de todas as minha emoções distorcidas, o circo pessoal dos meus horrores, onde eu no picadeiro usando milhares de máscaras, inclusive a do palhaço, animava o estranho espetáculo que agradava a todos, e enquanto todos riam e se alegravam com o meu talento singular e com o meu jeito bondoso e suave de lidar com tudo, enquanto todos riam por fora, eu solitariamente chorava por dentro, e nesta forma doentia e avessa de viver a minha vida eu passava a sentir cada vez mais culpa, e quanto mais culpa, mais eu sentia a necessidade de agradar, voltando sempre para o picadeiro com as minhas diversas máscaras neuróticas e padrões codependentes para tentar inutilmente agradar o mundo todo.
Em recuperação com a prática do programa de 12 Passos, eu consigo observar tudo isto, e o que me cabe agora a fazer — prontificação do Sexto Passo — é colocar fogo no meu próprio circo, o grande circo emocional das minhas ilusões a serviço do agradador (*) que ainda habita em mim.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.
Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.
(*) Não encontrei a palavra agradador no dicionário, mas creio que com as descobertas das nuances mais profundas da doença das emoções, mais cedo ou mais tarde esta palavra acabará sendo criada pelos gramáticos.

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