A Doença Invisível
A doença mental e emocional não aparece nas mídias — sociais ou não —, muitas vezes não aparece mesmo nem em quem a sente, como se ela fosse invisível, mas ela é real e permanentemente presente.
Todos vão dizer que não sofrem deste mal — a doença é uma exímia ilusionista —, vão dizer que até conhecem algumas pessoas que devem sofrer desta doença invisível, mas não elas. A doença não se importa muito com isto, ela é muito sutil e se manifesta de milhões de forma.
A doença é acordar no meio da noite com pensamentos preocupantes; a doença é não conseguir dormir ao longo de toda à noite por excesso de pensamentos; a doença é aquela droga que ingerimos para tentarmos dormir; a doença não é a realização dos nossos sonhos de alegria sem fim, é o pesadelo constante da realidade nua e crua; a doença é o pensar compulsivo que acha que vai resolver tudo através da imaginação; a doença é o pensar inconveniente na hora do silêncio, na hora da conversa, na hora da meditação, na hora da oração, na hora da contemplação, na hora do descanso...
A doença é aquele medo infundado por fantasias aterrorizantes criadas por nós; a doença é aquela palavra presa na garganta por décadas; a doença é aquela lágrima represada, aquela lágrima que por receio da crítica de terceiros impedimos que corra pelas calhas dos nossos olhos, afinal de contas, segundo os saudáveis, chorar é para os fracos; a doença é o isolamento total num estádio de futebol lotado, é o levantar da cama com a sensação de que estamos carregando o mundo em cima das nossas costas, onde cada passo se transforma numa verdadeira jornada para quebrar a inércia;
A doença em nós sempre precisa de alguma coisa para encontrar a paz, pode ser uma viagem, pode ser a realização de um sonho, pode ser um relacionamento, pode ser uma droga qualquer — para a droga da doença qualquer droga serve —, pode ser qualquer coisa, qualquer coisa no tempo e no espaço, qualquer coisa fora do aqui e do agora, e quando através de esforços hercúleos realizamos estes nossos desejos mentais, a doença debochada e friamente vira as costas e continua desejando mais e mais, fazendo de cada um de nós autômatos infelizes e escravos dos seus infindáveis caprichos — a doença das emoções é muito caprichosa e nunca se satisfaz com nada.
A doença das emoções é a prisão no quarto escuro ao longo do dia, ao longo da tarde, ao longo da vida, mesmo que o quarto não esteja trancado e haja muito luz do lado de fora; a doença somos nós trancados pelo lado de dentro; a doença das emoções é aquela sensação de que somos o centro do mundo, o nosso pequenino mundo umbilical, onde nos sentimos como grandiosos e poderosos deuses achando que tudo gira em torno de nós, e que tudo deve ocorrer da forma que nós achamos que é a mais adequada, pois somos nós os falidos imperadores deste mundo louco de faz de contas, este infeliz e ingovernável mundo de controle sem fim.
A doença das emoções é aquela perpétua máscara mortuária, dentre tantas outras máscaras mais, que utilizamos no nosso convívio com o mundo, uma máscara até adequada para funerais, ou para momentos onde as dores da vida de fato nos tocam, mas completamente inconveniente e sem propósito para todas as demais circunstâncias do nosso contínuo viver.
Para aqueles felizardos de nós que descobrimos a doença mental e emocional, já é possível perceber que ela, a doença, não é uma fraqueza, mas uma condição humana que exige um tipo de força geralmente desconhecido pela maioria das pessoas, não uma força bruta, mas uma força suave e sutil que vem da entrega a um Poder Superior, conforme nós O concebemos, e por mais que os dias sejam difíceis, por mais que a doença, como uma ditadora cruel, grite em nossos ouvidos que nós somos menos do que o pó da terra, nós ainda estamos aqui, nós ainda estamos de pé, nós ainda estamos respirando, voltando às reuniões e falando sinceramente destas questões que ninguém fala, abrindo, cada um de nós, dos nossos livros internos — profundos e desconhecidos livros —, compartilhando amorosamente com os demais daquelas coisas que todos sentimos e escondemos, e então e aos poucos vamos percebendo que estamos vivos e que não estamos sós, vamos percebendo que somos capazes de darmos contas das nossas contas e que não estamos quebrados, que não estamos isolados, que não estamos derrotados, que somos amados — mesmo não sentindo ainda este amor —, e que estamos simplesmente, dia após dia, trilhando a jornada do amor próprio, o amor que já está em nós, o amor que nos cura e nos dignifica.
Por isto a importância de cada um de nós continuar no caminho, pois é sempre um dia de cada vez, e afinal de contas a nossa história ainda não acabou, pois não somos um ponto final — nenhum ser humano é — somos apenas uma vírgula, uma maravilhosa vírgula nas páginas da vida que são escritas todos os dias desde o princípio dos tempos.

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