Dona Doente e Dom Doente
A dona Doença Emocional, ou simplesmente dona Doença, passava as manhãs na sua casa lavando as suas roupas sujas, e enquanto lavava, ficava imaginando milhões de situações que podiam levá-la a um estado de felicidade que ela ainda desconhecia.
Na parte da tarde, dona Doença passava o tempo passando as suas roupas limpas, e em enquanto passava a roupa e passava o tempo e passava a vida, ficava rememorando situações amargas do passado que levaram-na a um estado de infelicidade crônica.
Na parte da noite, deitada em seus lavados e passados lençóis, dona Doença passava o tempo que ainda lhe restava, antes de adormecer, sonhando acordada com o príncipe encantado da sua vida, que certamente chegaria um dia, montado num grande e bonito cavalo branco, a fim de levá-la para o seu palácio encantado, onde não haveria roupa suja para lavar e reinaria a felicidade eterna para ambos.
Como o pensamento é uma força poderosa e construtiva, com o passar, não o das roupas, mas o do tempo, finalmente apareceu na vida da dona Doença o seu príncipe encantado. Ele não veio de cavalo, veio de carro, seu nome era dom Doente, e depois de alguns meses onde entre eles fluía uma energia mágica, onde cada um deles via o outro como o seu próprio salvador, dona Doença e dom Doente foram viver juntos sob o mesmo teto no palácio das suas adoecidas ilusões a fim, é óbvio, de serem felizes para sempre.
No começo tudo ocorreu bem, todos os dias dona Doença olhava para o seu príncipe e agradecia aos céus por tê-lo enviado até ela, e o mesmo ocorria com dom Doente, que chegava ao ponto de não acreditar que uma princesa tão linda, tão bela, tão maravilhosa, tão amável e tão solícita houvesse finalmente cruzado a sua vida.
Com o tempo vieram os atritos tão comuns nas relações humanas, o véu da ilusão de ambos foi aos poucos caindo, e quando ocorriam discussões entre eles, com ambos tentando impor a vontade sobre o outro, finalmente surgiram as roupas sujas que precisavam ser lavadas, e nestes desagradáveis momentos dona Doença dizia para o seu príncipe encantado: "Dom Doente, você está muito doente das suas emoções, vá procurar ajuda, não consigo mais reconhece-lo, você se transformou numa pessoa insuportável", e dom Doente, carregado de cólera da cabeça aos pés retrucava para ela: "Dona Doença, se existe doença emocional aqui nesta casa isto é um problema seu e não meu, e nunca se esqueça que estou muito bem, obrigado, e quem precisa de ajuda aqui é você, com sua desagradável e inoportuna doença crônica".
Nestes momentos de tensão mútua onde a roupa suja era passada a limpo, dona Doença olhava para o seu príncipe e ficava horrorizada ao descobrir que havia se casado com um sapo, e dom Doente, por sua vez, ao olhar para dona Doente, não conseguia compreender como a sua tão bela princesa havia se transformado numa grande e desagradável abóbora — o amor enxerga muito bem, cega é a doença das emoções.
Sem a unidade entre dona Doença e dom Doente, o casamento terminou, e como ambos não procuraram ajuda para as suas questões emocionais, viveram até o final dos seus dias raiados de infelicidade, ainda cultivando em suas mentes a ilusão dos palácios, das princesas, dos príncipes, dos castelos, dos contos de fadas...
Desde então eles nunca mais sonharam, mas tinham recorrentes pesadelos, onde cada um deles culpava o outro pelo seu próprio infortúnio.
A doença das emoções, se não tratada, é progressiva e pode, em casos mais extremos, ser até mesmo fatal.
Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.
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