A Angústia, a Criança e o Rio da Vida
Desde as minhas mais remotas recordações eu me vejo sentindo angústia, muita angústia. Independentemente das circunstâncias externas, ao longo dos meus anos de vida foram raríssimos os dias em que este sentimento tão doloroso não me visitou.
Minha angústia é como a minha respiração, ela simplesmente está lá, tem dias que mais ativa, tem dias que menos ativa, mas ela sempre está lá. É uma dor muito primitiva e quando ela chega eu sinto que falta alguma coisa em mim; quando ela chega eu me sinto pequenino e carente, me sinto querendo colo, querendo conforto, querendo segurança, seria eu um carente crônico?
Algumas músicas da minha infância e juventude são perigosas para mim, pois estas canções podem despertar de forma muito intensa a minha angústia. Algumas canções do Elvis Presley intensificam a minha angústia, principalmente aquelas em que ele canta sobre amores maravilhosos e lugares cheios de paz, principalmente aquelas em que ele fala dos gramados e dos doces lugares da sua infância. Isto acontece não só com relação ao Elvis, mas com muitos outros interpretes musicais também, e é como se a canção deles estivesse dizendo nos meus sensíveis ouvidos: "Viajante Emocional, estes artistas sentem a mesma angústia que você!"
Muitas coisas que eu fiz ao longo da minha vida fiz na vã tentativa de fugir deste sentimento, pois ele dói tanto e a tanto tempo que eu não consigo dizer para vocês como seria o Viajante Emocional sem angústia, pois viver sem angústia é algo desconhecido para mim.
Hoje em dia o que mantém a minha angústia em um nível tolerável no meu dia a dia é a minha frequência às salas de 12 Passos, que através do seu programa de recuperação vai aos poucos despertando em mim uma fé em um Poder Superior, conforme eu O concebo, e escrevo isto não porque eu penso que o programa de 12 Passos funciona, eu escrevo isto porque eu sinto que o programa funciona na minha própria vida, e entre o meu pensar e o meu sentir existe uma distância, que de tão grande, não pode ser medida por nenhuma métrica humana.
Por isto eu preciso continuar voltando, pois assim como existem remédios que devem ser tomados diariamente para algumas doenças do corpo, existem também aqueles que devem ser tomados para a doença da alma, neste caso a minha própria alma, conforme eu concebo a alma.
Depois de tantas 24 horas de vida e de programação, vou finalmente descobrindo que todas as máscaras que usei ao longo da vida, não só aquelas máscaras que ficam em cima das mesas em algumas salas presenciais mas, muitas outras mais, não passam de inúteis truques infantis para tentar mascarar a minha verdadeira dor, a dor da minha angústia, dor esta revestida de culpa, impotência, carência e uma vergonha sem fim, como seu eu não fosse digno de estar aqui, e esta dor é tão funda, esta dor é tão profunda, esta dor que me inunda é tão imunda, que para não senti-la eu tento fugir o tempo todo da realidade, criando a cada instante um mundo idealizado a partir do meu cabeção compulsivamente pensante, e este estado de pensar intenso e contínuo me leva a estados de fadiga que nenhum tipo de repouso consegue mitigar.
Analisando e dissecando minha angústia através de um microscópio espiritual, o microscópio do Quarto Passo, vou desvendando seus tecidos, células, moléculas, átomos e partículas sub atômicas chegando paulatinamente num ponto, o ponto final: Eu sinto que em algum momento da minha existência, quando eu ainda não conseguia compreender como todo o universo ao meu redor funcionava, em algum momento em que eu era pequeno e completamente indefeso eu sinto que fui ferido por alguém que deveria proteger-me, e tal foi a dor que eu senti, uma violenta e dilacerante dor, que para nunca mais senti-la ao longo de todos os dias que viriam eu desenvolvi um profundo mecanismo de defesa que me permitiria, desde então, a passar pela vida sem sentir a vida; a passar pela vida longe da vida; a passar pela vida apartado da vida; a passar pela vida negando a própria vida, e o nome que eu dou a este intricado mecanismo de defesa e proteção é rejeição.
Rejeitando a vida eu rejeitei a mim mesmo, como se o feitiço estivesse voltando-se contra o próprio feiticeiro, mas como tudo isto está tão longe no tempo, e se de fato isto foi a ação de uma criança indefesa tentando proteger-se de um mundo novo e tão hostil que se descortinava ao seu olhar, quem sou eu para culpá-la por tudo isto, e afinal de contas fica muito claro para mim que esta ação de minha parte simplesmente realimentaria a minha própria rejeição, trazendo ainda mais angústia para o meu viver.
Uma criança em mim certa vez molhou os pés nas águas de um grande rio, o rio da vida; o contato com a água gelada traumatizou a criança, que entorpecida, assustada e ferida na sua inocência, estendeu o seu pequenino braço em direção ao rio, achando que com este singelo gesto poderia deter o seu curso e jamais se ferir novamente em sua águas.
A angústia esteve o tempo todo aqui enquanto eu escrevia estas linhas. Vou retificar...
A criança ferida em mim esteve o tempo todo aqui enquanto eu escrevia estas linhas, ela é linda e brilhante e eu estou começando a aprender a amá-la; costumeiramente a criança pega na minha mão e me ajuda a escrever sobre as coisas que tranquei dentro de mim por tantos anos para, quem sabe, ajudar a despertar outras crianças feridas nas águas do rio da vida também.

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