O Meu Doido Mundo

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos
modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"

Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha gratidão.

Meu Senhor e meu Deus, conforme O concebo, estou preso entre dois mundos, o mental e o real; estou suspenso e fora da realidade, como numa bolha, olhando lá do alto, ou quem sabe, lá do fundo do meu mundo mental o mundo real, querendo muito ingressar neste e ainda preso naquele. 

Sempre foi assim meu Senhor, sempre foi assim e eu não sabia, sofria sem saber, mas agora eu sei meu Senhor, agora eu sei que isto não é normal, agora eu sei que isto é doença mental, e sei que o meu lugar como criatura é no mundo real criado por Ti, e não no meu fechado mundo mental criado pelo meu ignorante e velho ego.

Meu Senhor, no meu mundo mental tudo é mais ou menos, nada é integral, nem o trigo nem o pão, nem o gato nem o cão, nem um indivíduo nem a multidão, nem o preto nem o branco, tudo é mais ou menos, tudo é cinza como a quarta-feira pós carnaval — Seria o meu mundo mental um muro de onde eu não consigo sair de cima? Seria na verdade o meu doentio mundo mental um outro muro das lamentações?

Meu Senhor, gasto muita energia mental para manter este doido mundo, este mundo de faz de contas, este mundo mágico, imaginado, desejado, sonhado e infantilizado, de forma que quando vou dormir à noite, estou absolutamente exausto de tanto manter e continuar expandindo o meu doido mundo, tal como um operário que trabalhou duramente e de forma presente no seu canteiro de obras — que inveja de quem vive o presente. Quero descer do doido mundo meu Senhor mas não consigo, tenho medo do mundo real, pois tem gente lá que agride, tem gente lá que aponta o dedo, tem gente lá que grita, tem gente lá que dá soco na mesa, tem gente lá que me coloca de castigo por futilidades...

Meu Senhor, observe meu Senhor, observe... São sentimentos infantis, são pensamentos infantis, é um mundo congelado este meu mundo imaginado e represado, este meu museu morto e insepulto dentro de mim, mas ao mesmo tempo vivo como um fantasma aterrorizante — minha vergonha tóxica  que me assombra todos os dias, todos os dias meu Senhor.

Meu Senhor, os subprodutos do meu doido, caótico e paralelo mundo são muitos e variados: Nostalgia, vazio, tristeza sem fim, fugas geográficas, raiva congelada, mágoa, ausência, impaciência... Provavelmente o grande produto seja a constante angústia que é despejada continuamente pelo escapamento do meu doido mundo, acelerado (tal como um veículo) constantemente pela minha mente viciada, acanhada, aterrorizada, desconfiada, amedrontada, entediada, envergonhada, adormecida, entorpecida...

Meu Senhor, cada átomo do meu ser é programado para rejeitar a realidade, para fingir que está tudo bem, para fugir, para negar; cada átomo nas suas ligações químicas é programado para não estar no aqui e no agora; cada átomo do meu corpo é programado para continuar perpetuando o mundo mental e doentio, o mundo falido e imaginado; o mundo das fantasias, da terra do nunca e dos pensamentos mágicos; o mundo dos jardins floridos e gramados verdes das cidades do interior, com seus lindos coretos nas praças e sua gente feliz em suas casas; o mundo das famílias funcionas das propagandas de margarina; o mundo das pessoas felizes para sempre no mundo do além, porque souberam sofrer calada e resignadamente suas dores no mundo do aquém; o mundo da felicidade perpétua... Tudo na imaginação, tudo na ilusão, tudo na solidão, tudo na depressão, tudo na escuridão meu Senhor, que grande confusão é este doido mundo!

Meu Senhor, as vezes a dor é tanta que minha vontade é começar a andar até a exaustão — seria eu um Forrest Gump do mundo real? , começar a andar até o fim do mundo e além, e depois continuar, continuar, continuar até o fim dos tempos, continuar até cair sem energias no chão para, quem sabe, conseguir apenas um minúsculo instante de paz mental, um pequenino instante onde não fique pensando neste meu doido mundo que faz de mim um escravo.

Meu Senhor, me ajude a confiar, a me soltar, a não controlar, a viver um dia de cada vez, a chutar o balde quando necessário — muitas vezes preciso mesmo chutar o balde —, me ajude meu Senhor a ingressar plenamente na realidade sem nenhuma resistência mental, vivendo com dignidade e confiança cada instante — Humildemente rogamos a Ele que nos libertasse de nossas imperfeições (Sétimo Passo).

Meu Senhor, como eu preciso do Terceiro Passo — Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de um Poder Superior, conforme O concebíamos. O problema maior meu Senhor, é que eu já conheço o Passo que já está devidamente registrado em algum escaninho  no meu mundo mental, e por supostamente conhecer, eu tenho a impressão, ou melhor, a presunção de achar que eu já o pratico, mas eu sei que não meu Senhor, pois este Passo para mim é o próprio ingresso no mundo da realidade entrando pela porta principal, e eu ainda me sinto meu Senhor e meu Deus, eu ainda me sinto encolhidinho e escondidinho como uma criança indefesa e amedrontada atrás da porta do meu mundinho, meu mundinho do faz de contas, meu doido mundo, meu pobre e tóxico mundo.

Ajude-me a descer meu Senhor, descer do meu orgulho; descer dos meus preconceitos; descer do meu racionalismo; descer da minha codependência; me ajude a descer Senhor, descer finalmente do meu mundo egoísta, imaginário, umbilical, patriarcal e singular, a fim de ingressar finalmente no Seu Mundo real e plural — Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições (Sétimo Passo).

Nestas linhas finais vem agora à minha mente uma frase que eu li em uma sala de anônimos, uma inesquecível frase: "Deus não abriu a porta do céu para eu entrar, contudo, abriu a porta do inferno para eu sair". É só por hoje meu Senhor e meu Deus; encerro por aqui expressando a Ti minha mais profunda gratidão por todas estas descobertas — Tendo encontrado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos que ainda sofrem e praticar estes princípios em todas as nossas atividades (Décimo Segundo Passo).

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. 

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Criança Ferida e o Neurótico

Minha Tristeza é Diferente da Minha Angústia

O Homem no Fundo do Poço