Os Intolerantes São os Outros
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia e gratidão.
Eu já tinha uma ideia do que falaria, não havia nada programado, mas, em linhas gerais, eu sabia qual o curso que daria ao meu verbo naqueles cinco minutos. Minha vez estava chegando; depois do próximo companheiro eu finalmente poderia fazer uso da palavra — codependentes são ansiosos. Mas a Internet não conhece os sentimentos humanos — a tecnologia é tão fria quanto o mármore — e, ignorando completamente aquele anseio codependente de falar, ela simplesmente caiu, deixando-me completamente emudecido dois minutos antes do meu glorioso momento de partilha dentro da eterna linha do tempo de viver — codependentes são egocêntricos e gostam de criar mirabolantes fantasias mentais.
Então, enquanto no meu desconexo estado de ostracismo tentava novamente a conexão com o mundo virtual, no silêncio de minha casa, tudo o que eu havia desejado falar desceu ralo abaixo, e num lampejo de segundo eu fui visitado por um velho sentimento, e neste momento eu tive um pequeno despertar espiritual. Alguns minutos depois estava de volta à reunião, e aguardei o momento de minha partilha; chegou finalmente a minha vez, e o coordenador gentilmente falou comigo: "Companheiro Anônimo, a palavra é sua". Então, finalmente externei o que estava sentindo naquele momento:
"Boa noite a todos; meu nome é Anônimo, um codependente em busca de recuperação. Ao longo de muitas 24 horas nas salas de 12 Passos venho ouvindo através da fala de outros companheiros um famoso adágio muito comum nas irmandades: "O ressentimento é um veneno que eu bebo esperando ardentemente que o outro morra". Já disse em vários depoimentos que a raiz de minha codependência está na figura do meu pai; nunca suportei a raiva do meu pai; nunca admiti o distanciamento do meu pai; nunca gostei do mau humor do meu pai; sempre achei intolerável o orgulho do meu pai; e sobretudo: jamais aceitei a intolerância do meu pai. Gostaria de dizer então que, na minha doentia visão codependente da vida, todas as minhas mazelas emocionais são de responsabilidade deste homem, que com tamanha carga de defeitos de caráter, fez de mim um infeliz e coitadinho codependente.
Basicamente era isto o que eu gostaria de dizer na noite de hoje, mas antes de minha fala, no vazio da internet e no silêncio que se fez, fui visitado pela intolerância e, em milésios de segundos achei que era a mesma e velha intolerância de meu pai que dava o ar de sua graça, mas eu estava redondamente enganado. Pela primeira vez em minha vida, deparei-me com minha própria e singular intolerância — descobri isto quando olhei nos olhos dela — e, entendendo a sua mensagem, despertei de minha codependente ilusão. Agora eu sei que não sou uma vítima da intolerância alheia, o segredo é que sou eu mesmo o intolerante e, como tal, venho colhendo ao longo de tantos e tantos anos os seus amargos frutos. Nunca tolerei o meu pai por ele ser simplesmente como é; nunca tolerei ser contrariado; nunca tolerei que minha vontade não pudesse ser aceita por todos; nunca tolerei a vida como ela é; nunca tolerei que as pessoas fossem exatamente como são; nunca tolerei nada que pudesse ter o diâmetro um pouquinho maior do que o meu imenso umbigo.
Então, um de meus grandes males emocionais, reside tão somente na minha própria intolerância — uma das serviçais de meu velho ego —, que com sua sorrateira e enganosa voz, vem embalando minhas ilusões e devaneios emocionais por tantos e tantos anos, sempre sussurrando em meus ouvidos: "Os intolerantes são os outros".
Vem agora à minha mente o Quinto Passo, e eu admito então que, só por este momento, a natureza exata de minhas falhas está na minha intolerância. Conhecendo agora a verdade, vou precisar muito da prática do Sexto Passo, a prontificação, que doravante passa a ser um exercício diário de educar em mim este defeito de caráter, bem como do Sétimo, onde, com humildade, rogarei ao Poder Superior conforme eu O concebo, que remova de mim esta enorme imperfeição, que de tão grande, até se parece uma imensa montanha".
Reformulo agora o já conhecido adágio: "Se o ressentimento é um veneno que eu bebo esperando ardentemente que o outro morra, a intolerância não é uma convidada em minha casa; ela é a própria anfitriã".
Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

Sem comentários, apenas gratidão!
ResponderExcluir