A Escravidão da Codependência
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia e gratidão.
Meu nome é Anônimo, mas a minha escravidão aos meus codependentes sentimentos e padrões, não. Sou um homem solto, porém, não sou um homem livre. A senzala emocional, ou ainda, a senzala da codependência ainda é minha casa e ainda está lá; o Senhor do Engenho ainda está lá — Codependente é o seu nome —, eu o vejo, eu o sinto; o opressor capitão do mato — o fiel servidor do Senhor do Engenho — persegue-me ainda a cada passo e, captura-me sempre que eu tenho evadir-me da minha senzala emocional para os campos da liberdade, vigiando-me diuturnamente — Medo é o seu nome.
Quando desejo a alegria de viver e começo a empreender sonhos de ventura — codependentes escravos não nasceram para a felicidade, grita o Senhor do Engenho dentro de mim —, o Senhor Codependente envia outro de seus doentios serviçais, a Culpa, e então, sentindo-me preso nas garras desta, sinto-me ínfimo e responsável por todas as mazelas do mundo, e então, sem apelação, por ordens expressas do Senhor Codependente, vou purgar este horroroso sentimento no medonho pelourinho da Vergonha Tóxica, nos meus grandes terreiros mentais, sob a vista acusadora de todos.
À noite, na senzala da codependência, completamente exausto após um estafante dia de trabalho mental, — a codependente mente jamais descansa —, sou visitado ainda por mais um algoz enviado pelo Senhor do Engenho, o impiedoso Vazio, que com seus poderosos e invisíveis grilhões, mantem-me preso a um cavernoso, fundo e solitário porão interior, impedindo-me de dormir e sonhar — o impreenchível Vazio é um eterno pesadelo —, e vou, pouco a pouco, sentindo-me levado para longe de minha Pátria Natal, levado para depressivas terras distantes por terríveis traficantes, que através do espúrio comércio das humanas emoções, enriquecem mais e mais o meu temido, intolerante e odiado Senhor Codependente.
Na minha doentia mente este cenário de senzala, Senhor do Engenho, Medo, Culpa, Vergonha, Vazio, submissão e escravidão foi projetado em minhas telas mentais por algumas décadas, até que um dia, cansado de tanta miséria e tendo adormecido sem a presença do implacável Vazio, finalmente sonhei, e era um sonho de esperança, e neste sonho eu recebi da amorosa mão do Poder Superior de minha concepção uma radiosa carta de alforria.
Quando acordei no dia seguinte, despertei no presente, e no presente não havia mais o ambiente da senzala e dos grandes terreiros da casa grande; não havia mais a figura do capitão do mato; não havia mais o pelourinho; quando acordei no dia seguinte, exteriormente tudo havia mudado, mas eu ainda sentia-me como um escravo, e dentro de mim ainda havia uma muda raiva do opressor Senhor de Engenho — o grande responsável pela minha escravidão; quando acordei no dia seguinte, ainda sentia medo, culpa, vergonha e vazio; quando acordei no dia seguinte, havia uma carta em minhas mãos, e nesta carta estava escrito: "Se tu desejas efetivamente a liberdade, vá até a uma Sala de 12 Passos descobrir os paradeiros do Senhor do Engenho, seu grande inimigo fidagal".
Desde então passei a frequentar as salas, na esperança de ver-me finalmente livre do meu opressor Senhor Codependente e sua corja, e depois de muitas e muitas 24 horas de partilhas e estudo dos Passos e Tradições, vim finalmente a descobrir que tudo não passou de uma grande ilusão, um grande embuste do meu velho ego. Seguindo de forma implacável o rastro de intolerância deixado pelo Senhor do Engenho, vim a deparar-me frente a frente com o meu velho inimigo, e o inimigo, acreditem se quiserem, morava mesmo dentro de mim. Admito então agora: Dentro de mim a escravidão e a senzala; dentro de mim o medo, o vazio, a culpa e a Vergonha; dentro de mim a intolerância; dentro de mim, sobretudo, o próprio Senhor do Engenho, o próprio Senhor Codependente.
A declaração universal dos direitos humanos, em seu artigo IV diz: "Ninguém será mantido em servidão ou escravidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas".
O Senhor Codependente em mim precisa ouvir isto todos os dias, até finalmente compreender que o cativeiro já acabou. Simplesmente por isto eu continuo, só por hoje, voltando com frequência à reuniões.
Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

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