Tanto Luxo Em Meio a Tanto Lixo
"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"
Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia e a minha gratidão.
Sou o caçula de uma uma família com seis filhos; nasci em um lar disfuncional, onde um grande coronel ditava todas as regras, e todos os demais, inclusive a esposa do coronel, deviam ouvir calados, sem questionar absolutamente nada — coronéis não gostam de questionamentos. Mas hoje eu não falarei do coronel — como falo dele!—, hoje eu falarei sobre os filhos do coronel, inclusive o Lolô.
— Lolô — era este o meu apelido na infância — você é filho de criação; Lolô, você não é nosso irmão de verdade — diziam alguns dos maluquinhos filhos do coronel.
Nestas horas o já codependente Lolô — a codependência começa na infância — chorava e corria para a sua mãe, em busca de socorro e afeto. "Mamãe, mamãe, eu sou filho de criação, eu sou filho de criação". Então a mãe do Lolô — aja paciência — parava com as suas costuras e, pacientemente, ia costurar as rasgadas emoções do menino, dizendo amorosamente para ele que aquilo era uma bobagem, que nada passava de uma grande implicância dos irmãos; nesta hora Lolô, como um bom codependente, fechava os olhos — os codependentes sofrem de miopia emocional.
Mas, de quando em vez o processo se repetia — os codependentes são insanos e insistentes —, e lá vinha mais uma vez um outro filho do coronel caçoar com o pobre do Lolô:
— Lolô, Lolô, você é tão queridinho da mamãe, mas você não é nosso irmão, você é diferente Lolô, você é muito bobo e chato e foi achado na rua em uma noite escura; você foi abandonado Lolô, e então mamãe, por pura compaixão, trouxe você para morar aqui. Você é filho de criação Lolô, um obscuro filho de criação da escura e desconhecida noite.
— Lolô, Lolô, você é tão queridinho da mamãe, mas você não é nosso irmão, você é diferente Lolô, você é muito bobo e chato e foi achado na rua em uma noite escura; você foi abandonado Lolô, e então mamãe, por pura compaixão, trouxe você para morar aqui. Você é filho de criação Lolô, um obscuro filho de criação da escura e desconhecida noite.
De novo Lolô com amargura no coração, correndo para o regaço acolhedor da sua mãe — os rios correm para o mar; de novo as lágrimas; de novo o paralisar das tarefas da casa, e então sua mãe, com aquela infinita paciência dos seres que conhecem o amor, dizia para ele que aquilo era uma tremenda de uma conversa fiada; nesta hora Lolô, como um bom codependente, tapava os ouvidos — os codependentes não ouvem muito bem.
Mas como um disco de vinil arranhado, cuja agulha não sai do lugar — os antigos sabem o que é isto —, repetindo sempre o mesmo trecho da música, um outro filho do coronel novamente aparecia — os codependentes estão em toda parte —, e aparecendo, descarregava sua metralhadora de codependentes e imbecis balas, suas próprias balas de sofrimento, no coração do pobre Lolô:
— Lolô, você foi achado na lata de lixo; papai te encontrou lá na beira da estrada, juntamente com o Camborde — o vira lata do coronel — e colocou ambos na cabina do caminhão. Esta é a verdade Lolô, esta é a verdade — repetia o sargento rabugento para o soldado raso.
— Lolô, você foi achado na lata de lixo; papai te encontrou lá na beira da estrada, juntamente com o Camborde — o vira lata do coronel — e colocou ambos na cabina do caminhão. Esta é a verdade Lolô, esta é a verdade — repetia o sargento rabugento para o soldado raso.
Lá vai Lolô novamente, chorando e correndo para o colo da mamãe que, enquanto passava suas roupas, passava também panos quentes naquelas provocações infantis, tentando mitigar a sentida e estranha dor do seu sensível filho — muitas vezes, nem mesmo as mães percebem a codependência.
Então, na sua codependência, Lolô cresceu como um estranho no ninho, um estranho no mundo real, um estranho no seu próprio mundo mental; cresceu em um lar disfuncional, um lar com um coronel, cinco sargentos implicantes, e uma mãe amorosa que, positivamente conseguiu manter um de seus pés fora do fundo poço da depressão que viria — o outro ficou atolado lá por muitos anos. O pior de tudo isto foi que Lolô, mesmo crescendo, passou a viver este quadro familiar por toda a sua vida, como uma peça teatral reapresentada uma infinidade de vezes — os codependentes costumam ficar presos nas peças infantis.
Na sua codependência, imaturidade e tentativa geral de controle sobre tudo e sobre todos, Lolô, como um fantasma, passou a viver em dois mundos; não o mundo dos mortos e dos vivos, mas o mundo da realidade, e o submundo dos poços depressivos e das fugas fantasiosas para um feliz país de faz de contas — codependentes são apaixonados pela fantasia de mundos perfeitos e funcionais.
Na sua codependência, Lolô cresceu sentindo-se menor, sentindo-se mesmo, muitas e muitas vezes, como uma folha solta levada pelo vento, sentindo-se como um verdadeiro, sujo e envergonhado monturo de lixo — codependentes não possuem autoestima.
Na sua codependência, imaturidade e tentativa geral de controle sobre tudo e sobre todos, Lolô, como um fantasma, passou a viver em dois mundos; não o mundo dos mortos e dos vivos, mas o mundo da realidade, e o submundo dos poços depressivos e das fugas fantasiosas para um feliz país de faz de contas — codependentes são apaixonados pela fantasia de mundos perfeitos e funcionais.
Na sua codependência, Lolô cresceu sentindo-se menor, sentindo-se mesmo, muitas e muitas vezes, como uma folha solta levada pelo vento, sentindo-se como um verdadeiro, sujo e envergonhado monturo de lixo — codependentes não possuem autoestima.
O ápice deste doentio processo mental terminou em um fundo poço depressivo, onde habitava um homem vivendo em uma descomunal montanha de lixo mental interior — algo como os deploráveis lixões de algumas grandes metrópoles —, onde brincava e chorava o Lolô abandonado e codependente, o Lolô esquecido e ressentido.
Nesta época de minha vida, eu tinha quase a certeza que viraria um mendigo, tinha quase a certeza que viria a ser um grande mentecapto. Mas o universo através do seu grande Arquiteto, tinha outros planos para mim; foi neste tempo sombrio que eu encontrei uma sala de 12 Passos.
Fui então, reunião após reunião, passando por um processo de reciclagem emocional, até finalmente, depois de remover montanhas de lixo mental, reencontrar a criança sofrida dentro de mim, a minha perdida criança interior, o meu amado Lolô da infância.
Estou agora, pouco a pouco, trocando o "i" do lixo, o "i" das 'Insanas' opiniões dos outros — codependentes importam-se muito com os outros —, pelo "u" de um grande 'Universo' de descobertas dentro de mim. Estou deixando de ser o lixo desprezado por mim mesmo, o meu impróprio lixo interior, o lixo sem alegria e estima, para, dia a dia, reunião após reunião, cultivar em meus lixões de outrora, o grande luxo, o luxo da saúde mental e emocional, o luxo da leveza e alegria de viver; o luxo da humildade e das descobertas das coisas simples; o luxo da liberdade de ser e existir.
Minha eterna gratidão Poder Superior — conforme eu O concebo —, minha eterna gratidão por tanto luxo em meio a tanto lixo.
Minha eterna gratidão Poder Superior — conforme eu O concebo —, minha eterna gratidão por tanto luxo em meio a tanto lixo.
Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

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