A Canção do Décimo Segundo Passo

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária
para aceitar as coisas que não podemos
modificar,
Coragem para modificar aquelas que
podemos,
e Sabedoria para distinguir umas das
outras"

Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia e a minha gratidão.



Eu já frequentava uma sala de 12 Passos a muitas e muitas 24 horas. Depois da grande depressão, não a de 29, mais a dos meus 38 anos de idade, acabei um dia sendo conduzido por mãos amorosas a uma destas salas — felizmente existem muitas espalhadas por grande parte do orbe terrestre. 

No começo não acreditei muito naquilo; mas fui ficando na sala, até que um dia, ouvi alguém falando alguma coisa que tocou algo profundo dentro de mim — na minha negação eu era incapaz de conseguir ouvir o outro. Depois desta pequena descoberta, e de muitas que viriam nos meses seguintes, resolvi abraçar aquele programa com todas as minhas forças; resolvi estudá-lo e, sobretudo, fazer um sincero esforço para praticá-lo no meu dia a dia. 

Foram muitas 24 horas na programação, muitas 24 horas fazendo um esforço sincero para escalar minhas montanhas e atravessar meus abismos e desertos emocionais. Houve, ao longo do meu processo na prática do programa, um momento em que, mesmo acreditando piamente em cada um daqueles passos, eu percebia que por mais esforço que fizesse — frequência as reuniões, prestação de serviço, estudo da literatura, encontros, prática dos Passos e Tradições... —, eu simplesmente não conseguia praticar o Terceiro Passo: "Decidimos entregar nossa vida e nossa vontade aos cuidados de Deus, como nós O concebíamos". Segundo a minha visão, eu estava fazendo tudo certo, mas a porta do Terceiro Passo, quaisquer que fossem os meus esforços, estava constantemente fechada para mim. 

Eu não tinha o menor desejo de desistir de tudo aquilo, virando as costas e simplesmente indo embora — seria uma profunda ingratidão de minha parte —, afinal de contas, fechado em meu profundo egoísmo, eu havia entrado um dia numa daquelas salas com um único grão de milho, e já havia recebido de volta ao longo de muitas 24 horas, um sem número de sacos de fubá. Como eu confiava integralmente no Programa, constatei que a dificuldade era mesmo minha, e que eu era absolutamente incapaz de realizar a entrega do Terceiro Passo — o ego costumeiramente fica aborrecido. 

Naquela noite de quarta-feira, lembro-me de ter saído da sala sentindo uma dor muita profunda e contumaz — não era angústia, não era medo, não era rejeição, não era vazio —, uma dor até então desconhecida para mim. Caminhei de volta para casa subindo a rua das Laranjeiras e, aproximadamente quatrocentos metros depois, dobrava a esquerda na Avenida Pinheiro Machado, uma grande reta com mais de um quilômetro de extensão. 

Se reta era a Avenida, torto era o meu andar; passei pelo Palácio das Laranjeiras, sede do governo do Estado do Rio de Janeiro, e vi no escuro da noite, sob o efeito das luzes artificiais, a beleza daquela construção. Mas eu não tinha o menor desejo de ser o governador do estado, eu não tinha o menor anseio de ser governador de nada, eu não tinha a menor vontade de entrar pelas portas daquele suntuoso palácio; o que eu desejava realmente era conseguir passar pela porta do Terceiro Passo, o que eu queria era simplesmente entregar minha vida e minha vontade nas mãos de um Poder Superior, tão somente isto. Mas eu havia capitulado e, a admissão de minha derrota doía em minha alma. Onde estava meu Poder Superior naquela hora que não me auxiliava, onde estava? — na frente do visível e tangível palácio do governo do homens, eu lamentei profundamente a minha impotência de sentir e ser tocado pelo intangível e invisível governo de Deus. 

Passei mais de duas semanas muito calado; não estava sentindo raiva ou revolta; não estava amargurado ou angustiado; não estava sentindo vazio existencial... sentia tão somente aquela dor funda e ouvia ainda uma voz que sempre repetia dentro de mim: "Você capitulou, você capitulou...". 

Minha vida continuou o seu ciclo normal, e de maneira habitual continuava voltando às salas; então, algum tempo depois, quando eu simplesmente abri a porta de minha casa para ir para o trabalho, eu constatei uma coisa extraordinária: Eu estava sentindo uma grande tranquilidade e paz de espírito e, apesar de todas as mundanas e humanas crises, apesar de todas as manchetes dos jornais e das péssimas notícias dos telejornais e das mídias sociais, eu estava finalmente otimista e confiante na vida — constatei naquele instante que a porta do Terceiro Passo estava finalmente aberta para mim. 

Compreendi então que minha capitulação foi a entrega do controle do ego soberbo em mim — o deus do mundo —, para o Poder Superior amantíssimo em mim — o Deus do espírito. A cerimônia de transferência de poder — a capitulação — ocorreu silenciosamente e sem alardes, não nos palácios do mundo, mas dentro de meus porões de amargura e sofrimento, onde a graça do Poder Superior, conforme eu O concebo, tocou-me, despertando-me de meu longo pesadelo de negação. 

Naquela noite de quarta-feira, lembro-me de ter saído da sala sentindo uma dor muita profunda e contumaz — não era angústia, não era medo, não era rejeição, não era vazio —, uma dor agora conhecida, uma dor silenciosa, serena, presente, humilde, resignada e amorosa, uma dor que abriu a tão desejada porta do Terceiro Passo, uma dor de uma profunda nobreza: Sua majestade, a Tristeza. 

Todas as manhãs alimento os passarinhos do céu, que visitam o pé de imbaúba branca que cresce na frente da minha casa. Sinto uma enorme alegria neste gesto, e enquanto eles estão por ali, ouço o canto deles, um canto de gratidão e sem palavras — os pássaros não falam —, e enquanto eles cantam, meu coração se encanta, e cantando também, traduz simultaneamente, da linguagem dos passarinhos para a linguagem dos homens o que estou ouvindo e sentindo: "Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem a todos aqueles que ainda sofrem, e praticar estes princípios em todas as nossas atividades" — Décimo Segundo Passo.


Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha codependencia; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.

Comentários

  1. Antes eu falava e escrevia com facilidade, mas a medida que vou conhecendo o programa e a mim mesma, tenho muita dificuldade em falar. Notei que eu frequentemente me comunicava para agradar e ser amada. Não quero manipular, quero apenas dizer que crescer dói, mas é o único caminho de vida. Gratidão!

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