A Vidraça

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



Estou há alguns dias sem comer e com muita, muita fome. Passo pela rua, avisto um restaurante e fico contente. Poderei saciar minha fome que me devora como um monstro voraz por dentro.

Caminho até o restaurante, pela vidraça olho os pratos sendo servidos lá dentro, neste momento minha boca enche d'água e o meu coração de alegria, finalmente minha fome será saciada.

Mas entre mim e a refeição tão desejada tem uma vidraça, e por mais esforço que faça, não consigo encontrar a porta de entrada, tudo é vidraça. Tudo o que mais desejo está lá dentro do restaurante, mas a vidraça me separa de tudo aquilo. Observo os pratos, mas não consigo tocá-los, não consigo sentir o gosto, não consigo sentir o aroma, não consigo sentir nada, apenas olho lá para dentro absolutamente faminto sem conseguir entrar em contato com nada que lá está — indescritível é a minha dor.

Preciso entrar no restaurante, a fome de vida é grande. Bato na vidraça; grito para que alguém lá do lado de dentro abra alguma porta para eu entrar; dou marteladas na vidraça; tento explodir a vidraça; rezo para que a vidraça desapareça dali; peço ajuda aos que passam pela rua; imploro aos céus para que as trombetas de Jericó destruam a vidraça; faço promessas de ir a Meca, Medina e Aparecida do Norte; ligo para a defesa civil; ligo para a NASA; ligo para os meus super-heróis; ligo para meus pais, avós e antepassados; ligo para o exército; ligo para a legião estrangeira; ligo para todos os santos do mundo; ligo para os pastores; ligo para os padres; liga para os monges; ligo para os profetas; ligo para os filósofos; ligo para os psicólogos; ligo para os psiquiatras, ligo enfim, para o mundo inteiro, e nada, nada...

A vidraça continua lá, observo tudo e desejo aquilo tudo, mas entre mim e a realização do meu desejo natural de saciar a minha fome milenar de vida e presença plena tem uma vidraça.

Eu achava que minha dor mais profunda era a de viver num profundo e depressivo poço, ledo engano. Saio do poço para a liberdade, e fora do poço encontro, não a liberdade, mas um enorme labirinto. Circulo pelo labirinto até encontrar uma saída, mas descubro, para meu desconforto, que estou numa ilha deserta e distante. Depois de muito esforço, consigo fazer um barco e remo finalmente em direção à liberdade, até encontrar, depois de muito remar, uma descomunal murallha transparente e invisível aos olhos que cerca todo o perímetro do meu mundo mental, uma instransponível redoma que me isola da realidade, a vidraça da rejeição — é esta a minha mais profunda dor.

Por mais esforço que eu faça, a vidraça continua lá, inquebrantável. Existe somente um poder no universo capaz de quebrar esta vidraça, um Deus amantíssimo, conforme eu O concebo, e rogo a Ele todos os dias que me conceda a Graça de transpor esta obsessiva barreira de ilusão, a vidraça da minha própria rejeição — preciso muito estabelecer uma conexão profunda com Deus, esta é a ligação que ainda não fiz, a ligação mais importante de toda a minha vida.

O Terceiro Passo para mim é tão essencial quanto o próprio ar que respiro — "Decidimos entregar nossa vida e nossa vontade nas mãos de um Poder Superior, conforme nós O concebíamos".

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida.

Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se à vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Os Plantões da Vida para ler a crônica anterior, ou em Os Orgulhosos Não Precisam de Deus para ler a seguinte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Criança Ferida e o Neurótico

Minha Tristeza é Diferente da Minha Angústia

O Homem no Fundo do Poço