A Realidade Copiada e Editada
Desde que eu era muito pequeno desenvolvi o hábito de copiar a realidade para a minha cabeça, fechar-me no meu quarto, editá-la da forma que eu achasse mais adequada, e então passar a desejar que todas as minhas idealizações pudessem sobrepor a realidade nua e crua tal como ela é, e desta forma eu seria feliz e todos os demais no meu entorno também.
Mas isto nunca deu certo, por mais que eu editasse e fizesse lá os meus download mentais nada jamais mudou, mesmo assim eu continuei repetindo este processo por muitos e muitos anos, até ficar viciado em criar fantasias e mundos idealizados.
Hoje eu sei que fazia isto por medo dos gritos, da cara feia, do olhar muitas vezes duro, inquisidor e autoritário do bicho papão. Passei então a fugir da realidade para o mundo das fantasias, mundo dos contos de fadas, mundo dos super heróis, mundo dos palácios, príncipes e princesas, mundo do cinema, mundo dos livros e gibis, passei então a fugir para qualquer mundo que não fosse o meu, onde eu me sentia sempre acuado e temendo o próximo ataque do bicho papão.
Assim eu cresci, e de certa forma, este estado mental dilatado que fez de mim um pensador compulsivo até me ajudou nos estudos e na profissão, as ciências exatas são vastos campos para as pessoas com elasticidade mental, e desta maneira eu passei a ganhar o meu pão.
Mas nem só de mente e pão vive um homem, e eu passei a viver a minha vida com a mente acelerada em detrimento dos meus sentimentos e emoções, que eu passei a trancafiar em algum lugar dentro de mim, por puro temor de senti-los, pois o meu universo infantil de sentimentos estava muito cheio do terror de ser emocionalmente atacado mais uma vez, cheio de ansiedade, culpa, vergonha, complexo de inferioridade, vazio existencial, sensação de não pertencimento...
Acabei transformando-me num ET, sendo um desconhecido extra terrestre para mim, bem como para todos aqueles que me cercavam, um ET que desejava de alguma forma voltar para casa e encontrar lá segurança, afeto, carinho e confiança, mas eu sabia que isto não era possível, pois o bicho papão morava lá.
Descobri na época da pandemia que todo o medo que eu senti ao longo de toda a minha vida, medo que me levou para fugas geográficas e mentais, medo que me levou para a neurose com todo o seu baile de máscaras, não era na verdade medo, era um outro sentimento mais profundo, era rejeição.
Se eu pudesse comprimir todos os meus temores ao longo da minha vida, condensando-os numa única palavra, esta palavra seria a rejeição, que em mim é um sentimento tão infantil, dolorido e profundo, que eu faço qualquer coisa no universo simplesmente para não senti-lo jamais, e por trás da rejeição sempre vem a figura do bicho papão da minha infância, trazendo no seu bojo lágrimas represadas, palavras que não podiam ser ditas, indiferença, autoritarismo, emoções que não podiam ser externadas, gritos silenciosos dentro das gargantas, olhares tristes e perdidos, amargura, ressentimentos...
Em processo de recuperação eu ainda luto para superar o bicho papão externo, mas o programa me ensina que tudo o que eu sinto me pertence, e que no fundo existe mesmo um bicho papão, não o externo, mais aquele com o qual eu ainda não consigo dialogar e acolher, um bicho papão dentro de mim muito doente, carente e controlador, um bicho papão que rejeita tudo, inclusive a mim mesmo, um bicho papão que somente pode ser curado pelo amor que habita em mim.
Este meu bicho papão interno é um feroz inimigo do Sexto-Passo, o Passo da prontificação, e eu preciso fazer exercícios diários para estar sempre presente nos momentos em que estou vivendo, sem o uso das velhas máscaras e dos sutis truques mentais para escapar do momento presente por vias mentais, e isto para mim ainda é uma estrada a percorrer, uma estrada que me leva Passo a Passo de volta ao lar todos os dias.
Longa é a estrada, e maior do que a distância é o meu sincero desejo de chegar lá.

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