A Criança no Balanço


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"


"Oi... o que você está fazendo aí?"

Estou balançando...

"Ah... balançado para divertir-se..."

Não! Estou balançando para tentar resolver um problema.

"Como assim? Não compreendi!"

Estou no meio de um conflito entre duas pessoas; quando balanço para a frente estou tomando o partido da pessoa A, e quando balanço para trás estou tomando o partido da pessoa B.

"E quando você finalmente vai parar de balançar?"

Não sei; é aí é que está o meu grande problema no balanço, eu quero agradar ao A, mas também não quero desagradar ao B, então fico aqui balançando indeciso sem saber como parar.

"Mas por que afinal de contas você tem que agradar simultaneamente ao A e ao B?"

Se eu desagradar ao A o A não vai gostar de mim, o A fica muito ressentido quando as pessoas não gostam dele, e eu também não posso de forma alguma desagradar ao B, o B é uma pessoa muito agradável e amorosa, uma pessoa que não fere a ninguém, portanto eu jamais poderia magoá-la.

"Há quanto tempo você está aí balançando entre o A e o B?

Não sei exatamente, mas acho que desde que me entendo por gente estou aqui balançando, balançando, balançando entre o A e o B.

"E enquanto balança onde você realmente está?"

Creio que esteja perdido entre o A e o B.

"Mas no seu constante balanço você não consegue perceber que além do A e do B existe também uma outra pessoa, uma terceira pessoa, e que esta pessoa poderia finalmente resolver o seu eterno problema do balanço?"

Uma terceira pessoa? E quem seria esta pessoa?

"Esta terceira pessoa seria o C."

Você está dizendo-me que está pessoa seria eu, é isto?

"Isto mesmo, esta terceira pessoa é exatamente o C."

Você é iletrado? Por que não fala você ao invés de o C?

"Digamos que esteja utilizando uma linguagem muito simples, a linguagem do coração, de forma que todos possam compreender." 

Está bom... continue então com o seu raciocínio, por favor.

"O C não precisa balançar perdidamente entre o A e o B, o C simplesmente deve parar de balançar, e parando, o C o vai finalmente encontrar o seu próprio ponto de equilíbrio, e a partir deste ponto o C conseguirá tomar as suas próprias decisões independentemente dos conflitos existentes entre o A e o B, pois na verdade o conflito que leva o C ao contínuo balançar não está nem no A e nem no B, o conflito está mesmo é dentro do C."

Nunca havia olhado meu interminável balanço por esta ótica.

"Você sabe quem está empurrando o C no balanço entre o A e o B?"

Sempre tive medo de olhar para trás a fim de descobrir quem estava empurrando-me continuamente, sempre tive medo... medo de viver, medo de morrer, medo de cair do balanço, medo de tudo... Por isto fico balançando sem parar, o balanço me trás uma certa segurança, em contrapartida sinto muitas vezes um desconforto, como se estivesse em contínuo processo de fuga, o que gera em mim muita culpa e sentimentos de não pertencimento.  Seria o sentimento do medo aquele que me balança?

"Não, não é o medo quem empurra o C, o medo está presente no seu balançar e nada mais é do que um subproduto de um sentimento mais profundo ainda, o sentimento que por décadas te balança!"

Que sentimento é este?

"Quem empurra o C é o seu profundo sentimento de auto rejeição, e não gostando o C do C mesmo, o C procura sempre agradar aos demais, na ilusão de que eles possam dar para o C o que o C mesmo não dá (amor), mesmo tendo em abundância, daí o seu perpétuo balançar entre o A e o B, e note que quaisquer que sejam os locais por onde o C transita, lá o C sempre encontrará um A e um B, ficando o C novamente balançando entre eles. Mas não é só isso..."

O que mais?

"Além da auto rejeição existe também um outro sentimento que te empurra no balanço... é o seu profundo desejo de controle, pois você acha que se controlar todas as coisas e todas as pessoas viverá feliz para sempre, e como o C, mesmo tentando uma barbaridade, não consegue controlar absolutamente nada, acaba sempre balançando por aí sempre cheio de raiva, culpa e frustrações sem fim por simplesmente não conseguir impor a sua vontade sobre os demais."

Muito revelador e profundo tudo isto, e eu admito: Eu tenho medo de olhar, medo de olhar pro C, mas quem é o C afinal de contas que veio aqui interromper o meu balançar? 

"O C é a voz da sua própria consciência em processo de despertar,  bem como um Poder Superior, conforme o C o concebe."

Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

Clique em Teje Preso para ler a crônica anterior, ou em Esta Tal de Culpa para ler a crônica seguinte.

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