O Viajante Emocional, Romeu e as Julietas


"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade

necessária

para aceitar as coisas que não podemos

modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"



"Viajante Emocional, podemos ter uma conversa amigável?"

Quem está falando?

"Daqui a pouco você saberá, mas fique tranquilo, não precisa fugir agora, geralmente na minha presença você costuma fugir somente mais tarde; não sou sua rejeição, e também não precisa cavar um buraco no chão e desaparecer para sempre, não sou sua vergonha tóxica."

Sou todo ouvidos.

"Te acompanho desde a sua infância, desde aqueles tempos em que você era um garoto e amava ir solitariamente aos cinemas, você sempre foi um solitário amante de bons filmes. Você se lembra daquele filme do Romeu e Julieta, aquela história clássica de William Shakespeare?"

Sim, sem dúvida.

Consegue recordar-se que depois do fim trágico da história você chorou por alguns meses de tanta dor por aquele drama, ficando perdidamente apaixonado pela Julieta, tão linda e frágil ela era? Consegue lembrar-se que quanto mais sofria, mais ouvia a música tema do filme na voz do Johnny Mathis?"

Sim, me lembro.

"Foi na época daquele filme que comecei a atuar mais ativamente em sua vida, lá pelos seus 12 anos, e desde então nunca mais deixei de estar com você. Você se apaixonou pela Julieta, mas diz para mim uma coisa, você acha que esta paixão era possível Viajante Emocional? Você sempre morou no Brasil e a atriz, a Julieta, morava no Estados Unidos, isto já era um enorme problema, e o outro era que você nem poderia falar nada com ela caso a encontrasse, você não conhecia nem os rudimentos do verbo To Be, e era apenas mais um menino pobre de periferia, dentre tantos outros, está entendendo o que eu estou falando?"

Mais ou menos, onde você quer chegar?

"Mantenha a calma e o foco Viajante Emocional, só por hoje deixe sua ansiedade de lado e continuemos. Diga uma outra coisa para mim Viajante Emocional, Você acha que estava de fato amando a Julieta ou, no fundo o que você desejava fazer era salvá-la daquelas duas famílias disfuncionais e cheias de ódio? A família dela e a família do Romeu."

Pergunta difícil de responder.

Viajante Emocional, na sua casa havia alguém tão autoritário quanto o pai do Romeu e o pai da Julieta?

Sim...

"Continuemos... Depois da Julieta do cinema você voltou a se apaixonar profundamente por outra mulher, apesar de sua tenra idade?"

Sim... Minha vizinha era uma moça muito linda, uma das mais lindas do bairro, e eu imaginei que um dia casaria com ela e que seria feliz para sempre, tão bela e meiga ela era.

"Por favor, não fique ressentido comigo, vou chamar sua segunda paixão de Julieta também, e você conseguiu realizar o seu sonho de felicidade com a nova Julieta? Se a resposta for negativa me diga o que aconteceu."

Não consegui. A vizinha era bem mais velha do que eu, e não demorou muito tempo e ela já estava casada, e algum tempo depois já tinha até uma filha, e eu era ainda um adolescente, então curti uma fossa por muitos anos vendo os meus sonhos de ventura rolando morro a baixo.

"Consegue definir para mim como era a tal meiguice de sua vizinha, ou melhor, de sua Julieta?"

Por acaso você é algum investigador policial?

"Não Viajante Emocional, não sou, por favor responda a pergunta, e fique tranquilo que no final da nossa conversa eu me revelo para você."

Ah... ela tinha um charme sabe, algo assim como um que de tristeza, sei lá, algo assim como uma fragilidade que doía no meu coração.

"Na sua casa havia alguém parecido com a sua Julieta, alguém assim com este que de fragilidade Viajante Emocional?"

Sim, havia.

"E como era o pai da sua Julieta Viajante Emocional?"

Creio que autoritário e criador de encrencas.

"Você consegue dizer-me se o que de tristeza de sua Julieta tinha algo a ver com o pai dela?"

Pergunta difícil de responder.

"Viajante Emocional, você acha que estava de fato amando a sua nova Julieta, ou no fundo o que você desejava fazer era salvá-la daquele charme, aquele que de tristeza?"

Pergunta difícil de responder.

"Depois da vizinha Julieta apareceu uma outra Julieta em sua vida Viajante Emocional?"

Sim... uma prima distante que morava no interior do Espírito Santo, na cidade dos meus avós, onde eu geralmente ia nas férias escolares, uma moça tão linda quanto a Julieta do Romeu, tão bela quanto a atriz britânica Audrey Hepburn e com o mesmo que de tristeza da minha vizinha Julieta que ficou para sempre perdida para mim.

"Bem... havia de fato a distância, mas vocês deviam ser mais ou menos da mesma idade, então desta vez você de fato se relacionou com sua prima, a Julieta III?"

Não; na primeira vez que olhei para ela senti uma paixão vertiginosa, achava que estava vendo uma deusa na terra e que ela seria sem a menor sombra de dúvidas a mulher da minha vida por toda a vida, algo assim como a minha alma gêmea, e eu tinha a mais absoluta certeza de que ela era a banda que faltava da minha própria laranja. Isto foi mais ou menos na mesma época em que perdi a minha encantadora vizinha, a Julieta II, então fiquei guardando no coração aquela paixão ardente comigo, nunca dizendo nada para ela, aguardando um momento oportuno no futuro para declarar o meu amor.

"Neste período todo você nunca revelou nada para sua Julieta III?

Mais ou menos... Depois de passar as minhas férias na cidade onde ela morava e retornar para casa, eu geralmente tomado pela mais profunda paixão escrevia umas cartinhas bem românticas para ela, deixando nas entrelinhas um amor não revelado, e enviava pelos correios, naquela época não existia a internet.

"E a Julieta III respondia as suas cartas Viajante Emocional?"

Nunca respondeu nenhuma delas.

"Quando você retornava lá no ano seguinte falava alguma coisa sobre estas cartas?"

Não falava nada, mas lá no fundo do meu coração eu tinha quase certeza de que ela gostava de mim, então era só aguardar o momento mais oportuno para fazer a declaração em algum momento no futuro.

"E qual foi o desfecho desta história? Finalmente teremos um final feliz com sua Julieta de plantão?"

Infelizmente não! Quando eu estava terminando a faculdade, lá pelos 23 anos, resolvi passar mais uma vez minhas férias naquela cidade encantadora cercada de cafezais por todos os lados, onde morava a moça mais linda do mundo, a bela dos cafezais capixaba, e finalmente revelar o meu amor para ela, mas quando cheguei lá era tarde demais, ela havia se casado com um engenheiro florestal e foi morar lá na longíqua floresta amazônica.

"E então?

E então eu cai novamente na mais profunda melancolia, perdi mais uma vez a minha amada e grande foi a minha dor por alguns anos.

"E mesmo sentindo esta dor você ainda idealizou outras Julietas para ser feliz, certo Viajante Emocional? A Julieta boliviana da faculdade, a Julieta IV; a Julieta que você encontrou na época do seu estágio no IBGE, a Julieta V; a Julieta estagiária no seu primeiro emprego, aquela alta e elegante, a Julieta VI; a Julieta da aula da dança de salão no Jardim Botânico, a Julieta VII; a Julieta baixinha e charmosa da época do pré vestibular, aquela que você via todas as manhãs no ônibus, a Julieta IX; a Julieta que trabalhava na loja de roupas, a Julieta X; a Julieta que estudava enfermagem e morava perto da sua república, a Julieta XI; a Julieta que estudava medicina e morava não muito longe de sua casa, aquela tão linda quanto a Rainha Elizabeth II nos tempos da juventude, a Julieta XII... Todas estas incontáveis Julietas idealizadas por você, todas elas, por uma razão ou outra, inacessíveis para você, todas elas impossíveis para você. Certo ou errado Romeu cronicamente apaixonado?"

Infelizmente tudo certo.

"Estamos terminando nossa conversa Viajante Emocional, tenho ainda mais uma pergunta para você: Ao longo deste tempo todo nunca apareceu de fato uma Julieta dentro de uns destes algarismos romanos com quem você pudesse se relacionar de verdade?"

Sim, apareceram algumas.

"E então..."

Então quando eu percebia que a Julieta estava também interessada em mim, depois de algum curto tempo eu me afastava, sempre achando que esta não era a Julieta ideal.

"Desta maneira sua fome de amor, afeto, carinho e relacionamentos profundos e saudáveis continuava não saciada, pois as Julietas idealizadas nunca estavam presentes, e você estava sempre ausente para as Julietas presentes ali ao seu lado, certo?"

Certo.

"Chegamos ao final da nossa conversa Viajante Emocional."

Mas afinal de contas quem é você? Você disse que me acompanha desde a minha adolescência, mas não consigo identificar-te, não estaria havendo algum engano?

"Engano nenhum meu caro Viajante Emocional, engano nenhum... Eu sou o seu mais profundo desejo por afeto presente, e sou também aquela que sabota este afeto através da insana idealização mental de impossíveis amores sempre ausentes, e ainda aquela que foge loucamente no final quando o afeto está ali ao alcance do seu coração, gritando no seus ouvidos 'fuja Viajante Emocional, fuja, pois mais vale uma felicidade idealizada por alguém ausente, do que uma infelicidade real por alguém presente'; eu sou aquela aquela que faz de você um carente emocional crônico que mesmo necessitando de afeto rejeita o afeto; eu sou aquela que faz de você um inconstante Romeu na eterna busca por suas impossíves Julietas, eu sou a prima irmã de sua Vergonha Tóxica e de sua Rejeição, eu sou sua Anorexia emocional  e não passo, como suas demais emoções desconcertantes,  de mais um criação do seu vasto egocentrismo infantil Viajante Emocional."

Posso fazer uma pergunta antes da sua partida?

"Fique à vontade Viajante Emocional."

"O que todas estas Julietas tem a ver com o charme que mencionei, aquele que de tristeza?"

"Viajante Emocional, isto não é assunto meu, mas fique sossegado, mais dia, menos dia a emoção responsável por isto baterá à sua porta, encerramos por aqui, é só por hoje."

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas. Caso tenha gostado da mensagem, sinta-se a vontade para compartilhar com os demais.

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