A Chave do Enigma da Angústia

"Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária

para aceitar as coisas que não podemos
modificar,

Coragem para modificar aquelas que
podemos,

e Sabedoria para distinguir umas das
outras"

Seja muito bem-vindo ao blog; Benvindo é meu sobrenome, Anônimo é o meu nome e pública é a minha gratidão.

No princípio era o meu enorme mundo umbilical, e além dele eu não conhecia mais nada; meu umbigo era ligado por um cordão a um local muito agradável e feliz, e eu desejava viver neste paraíso para todo o sempre — este mundo me bastava —, mas um dia veio alguém e cortou meu cordão umbilical e o acesso frequente e ilimitado ao meu paraíso pessoal, um zero oitocentos eterno — maldito seja! —, e então veio o caos.

Degredado do meu mundo umbilical, passei a vagar como um estrangeiro errante pelo estranho mundo que tudo permeava — a realidade , um mundo onde eu não gostaria de estar, e de certa maneira não estando, criei para mim mesmo um outro mundo dentro do mundo, um mundo paralelo e a princípio ideal, mas que com o passar do tempo transformou-se num mundo escuro, obscuro, triste, lodoso e trevoso situado a leste do meu paraíso perdido, um depressivo mundo onde eu ficava bem encolhidinho dentro de uma caverna — "Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. - Gênesis 4:9-16".

Profundamente solitário e amargurado no meu caótico e falido mundo idealizado, comecei a imaginar coisas; a pensar em coisas; a prever as coisas; a sonhar com as coisas; a esperar pelas coisas; a criar as coisas; a prever as supostas coisas que viriam e a sofrer com as coisas que já haviam passado, e no meio de todas estas insanas coisas e de uma crescente e pungente dor, foi nascendo em mim a necessidade de controlar absolutamente tudo ao meu redor, como se através deste insano controle mental eu pudesse de alguma forma criar um arremedo do meu paraíso perdido, ou quem sabe, livrar-me definitivamente de um mundo entulhado de coisas mentais — assim foi nascendo um insano estado de coisas.

"Maldito seja quem me jogou no caos, maldito seja quem me expulsou do meu mundo umbilical", pensava eu entre uma e outra coisa inútil, responsabilizando terceiros — o amor enxerga muito bem, cega é a ignorância  pelo meu infortúnio e angústia sem fim, jurando vingança, "você me paga seu maldito, um dia vou desmascará-lo e finalmente teremos o nosso acerto de contas", até que depois de um montão de coisas e de muito tempo à deriva no oceano da minha escuridão, num certo dia eu achei que havia encontrado dentro do meu mundo caótico o grande responsável pelo corte do meu cordão umbilical e seus consequentes pesares: o meu velho ego; só faltou eu gritar para ele lá do fundo de minha desolação, "teje preso" — expressão popular.

Logo que o vi percebi de imediato que ele era um grande ilusionista, trapaceiro e o grande criador daquele caótico mundo onde eu vivia, e apesar de tudo isto, habitava dentro de minha própria casa emocional, tal como um inquilino indesejado e folgado que não pagava o aluguel, vivendo a expensas do meu próprio esforço; ficou muito claro para mim que todas as minhas dores, anseios, mágoas, medos e frustrações eram de responsabilidade daquele embusteiro, que com seu grande talento transformava-me numa pobre vítima dentro do meu próprio caos — somente as inflexíveis vítimas de suas próprias emoções não encontram o processo de recuperação.

O inimigo — meu velho ego — habitava dentro de mim e precisava ser expulso; passei a desprezá-lo e a maltratá-lo, era constantemente muito rude e agressivo com ele, e do fundo do meu coração, empreenderia todos os esforços possíveis e imagináveis para libertar-me dele para sempre, pois através de sua partida eu finalmente encontraria o equilíbrio emocional, e com ele iriam embora para sempre toda a minha negatividade, meus medos, meus complexos, minha máxima culpa, minha vergonha de ser e existir, minha raiva, meus ressentimentos, meus vazios, meus abismos, minhas montanhas instransponíveis, meu poço escuro, minha caverna triste e solitária e, sobretudo, minha angústia sem fim pela perda do meu maravilhoso mundo umbilical — os narcisos possuem uma grande dificuldade de contemplarem a beleza do sol.

Mas, por mais esforço que eu fizesse o abusado do meu ego não ia embora. Tentei abandoná-lo na rodoviária do Tietê em São Paulo e não adiantou; tentei deixá-lo num banco de um dos vagões do trem da Central do Brasil no Rio de Janeiro e não adiantou; tentei escondê-lo nos cumes remotos e gelados da Cordilheira dos Himalaias e não funcionou; tentei peregrinações a diversos locais sagrados a fim de pedir aos deuses que o levassem para bem longe, mas isto também não adiantou; fiz o possível, o impossível e o imaginável porém, no fundo o abusado do meu ego continuava no mesmo lugar, e o pior de tudo isto é que para cada tentativa de livrar-me dele crescia em mim meus familiares sentimentos de angústia e culpa, como se eu estivesse fazendo alguma coisa muito errada.

Depois de muito lutar com o meu velho ego, sofrendo em mim mesmo as consequências desta insana guerra mental e emocional — o veneno é um líquido que eu ingiro esperando que o meu inimigo morra [autor desconhecido] —, eu achei que havia finalmente encontrado a resposta para o meu drama pessoal: meu ego era o próprio demônio que estava habitando dentro de mim, um demônio que deveria ser despachado o mais rapidamente possível para o seu local de origem, os quintos dos infernos, o mais rapidamente possível.

Uma nova cruzada foi iniciada a fim de libertar minha terra santa dos domínios do infiel; Passei então a sentir mais raiva e mais desprezo do que antes por esta vil criatura interior que habitava o meu ser, e todos os dias viajava para dentro de mim mesmo a fim de discutir e exigir com todas as letras de todos os alfabetos que ela partisse em definitivo para o seu lugar de origem, os quintos dos infernos. Mas meu demônio vermelho, chifrudo, carrancudo e debochado não ia embora, limitando-se simplesmente a rir em minha cara, apesar de todas as minhas tentativas sem fim: Falei com o demônio; gritei com demônio; apontei o dedo para o demônio; implorei para o demônio; li coisas bonitas para o demônio; xinguei o demônio; exorcizei o demônio; joguei ervas santas no demônio; acendi velas para o demônio; fiz o sinal da cruz e outros sinais para o demônio; banhei o demônio com água benta, água doce, água salgada, água do Mar Vermelho, água do Mar Morto e nada, nada, tudo em vão, o demônio simplesmente não ia embora, deixando-me cada vez mais num estado de nervos deploráveis, uma verdadeira lástima.

A guerra santa com o demônio continuou, o tempo passou, até que num certo domingo de um mês de setembro, numa cidade litorânea do estado de Santa Catarina, eu ouvi ao despertar pela manhã o barulho suave das ondas do mar quebrando na praia; fui ouvindo a doce canção das ondas sobre a areia e com a canção veio a angústia, e com a angústia eu me vi viajando por uma estrada que me levava mais uma vez para dentro de mim, e mais uma vez dentro de mim eu vi o meu indesejável demônio, e antes de começar a brigar com ele, senti que a angústia que eu sentia naquele momento era também a angústia dele, e aquele sentimento calou fundo em minha alma.

Desde o dia da descoberta de que a minha angústia era também a angústia do meu próprio demônio interior, bem como nos dias que se sucederam, eu não mais discuti com ele, nem mais desejei que ele fosse embora para o inferno ou outro local qualquer, pois percebi que a minha dor mais profunda era também a dor dele, e desde então minha cruzada interior estava encerrada, havia finalmente descoberto que eu e o demônio éramos um, ou se não fossemos, estávamos por algum artifício do universo irmanados num mesmo sentimento de dor, e desde então eu passei a tolerá-lo, compreendê-lo e respeitá-lo — um armistício suspende temporariamente uma guerra.

Apesar desta descoberta memorável, continuava ainda a sentir a velha angústia, e mesmo já não habitando mais o país da depressão, no fundo do meu coração eu desejava enormemente retornar para aquele doce, confortável e seguro mundo umbilical e ideal, apesar de já estar bem mais presente na realidade que podia ser observada através dos meus cinco sentidos, passando a viver em paz com o meu velho ego — meu demônio interior —, bem como em paz comigo mesmo — um tratado de paz encerra um conflito.

A chave da angústia somente foi descoberta tempos depois, quando já estava absolutamente cansado de brigar com a realidade, moralmente derrotado — Primeiro Passo — e completamente sedento de um Poder Superior, conforme O concebo — Terceiro Passo —, e pela Graça deste Poder o enigma foi revelado: Não havia nenhum demônio infernizando a minha vida, e o meu velho e desprezado ego não passava de uma simples criança perdida, sofrida, amedrontada e esquecida por mim dentro de mim, aguardando ansiosamente pela minha presença, pelo meu amor e pela minha luz, uma criança interior que nunca deixou de estar comigo, apesar de toda a minha total ignorância e o meu inconsciente distanciamento em relação a ela — de uma paz sem tratado nasce o amor.

Vi-me um dia varrendo minha casa emocional, tudo estava limpo e aparentemente em ordem, achava que conhecia plenamente o local em que vivia, mas estava enganado... a vassoura tocou num ponto aos rés do chão, senti que era oco e que havia uma pequena abertura, e quando abaixei e olhei através desta abertura, vi que havia uma escada que levava a um desconhecido porão, e dentro deste porão eu vi a criança interior abandonada e completamente coberta de pó entre os escombros de minhas desequilibradas emoções ao longo de décadas  — minha  criança interior é imortal.

Ah... "Como assim abandonar na rodoviária do Tietê em São Paulo uma criança fragilizada e desamparada numa noite fria de inverno?; Como assim esquecer premeditadamente uma criança indefesa no trem da Central do Brasil no Rio de Janeiro?; Como assim degredar uma criança inocente para os confins dos Himalaias? Como Assim, como assim? Ah... quem sabe o Conselho Tutelar cuide dela; quem sabe uma mãe carente cuide dela; quem sabe o Cristo Redentor cuide dela; quem sabe os monges budistas cuidem dela, quem sabe... Não!, Não!, Não! Quem deve cuidar dela sou eu, pois sou eu a própria criança, sou eu o pai, sou eu o filho,  só não sou mesmo o Espírito Santo, amém". Aí está finalmente o dedo na ferida da minha constante angústia, e agora eu sinto alegremente que eu e a criança somos um — "Deus disse: 'Faça-se a luz!' e a luz foi feita - Gênesis, 1".

Meu nome é Anônimo, Anônimo em recuperação! Pública é a minha codependência; eu sou maior que todas as minhas ilusões. Só por hoje serei feliz; só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Paz, serenidade e muitas 24 horas.  

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